domingo, 12 de junho de 2011

Títulos

Conheço Susanna Tamaro dos contos infantis.
Um livro com uma capa horrorosa e um título de "Vai aonde te leva o coração" não seria concerteza uma escolha de leitura minha. Felizmente, uma recomendação de leitura, fez com que o lesse.
Uma mulher de 80 anos, escreve quase diáriamente, entre 16 de Novembro e 22 de Dezembro de 1992, a uma neta ausente há dois meses que com ela tinha crescido. No entanto, mais do que escrever à neta, escreve para si própria. Revela segredos de uma vida inteira. Daqueles que, presentindo-se o final da vida, têm que ser revelados. Como se de uma confissão se tratasse, por forma a permitir uma morte mais leve, sem remorso. Nesta "hora", não há já forças para zangas. Velhos e novos dispondo-se a aceitar tais revelações pela urgência da morte.  
"...os mortos pesam menos pela ausência do que por aquilo que - entre eles e nós - não foi dito."

Aos 80 anos, se a senilidade não tomou conta de nós, imagino eu que o peso de um ou mais segredos carregados desde sempre, se torne insustentável e, à mínima oportunidade, o atiremos corpo fora como se fosse um espirro. E, tal como contado neste livro, sejamos surpreendidos por saber que, afinal, o segredo que era segredo, não era só nosso. Quem nos acompanhou, connosco viveu, verdadeiramente nos conheceu, sempre o soube. Tal como nós próprios, carregou o peso do segredo sem nada revelar.
"«As mãos da Ilaria», disse com o olhar baço, «mãos daquelas ninguém mais tem na família», depois, voltou para a cama e morreu. ... Durante dezassete anos, sem nunca ter deixado transparecer fosse o que fosse, guardara aquele segredo dentro dele."

Conseguimos perceber quão errático foi o nosso caminho, construído de erros para atingir um fim, em si mesmo desconhecido.
"Aos quarenta anos, compreendi de onde devia partir. Compreender onde devia chegar foi um processo demorado, cheio de obstáculos, mas apaixonante."

Descobrimos que, o acaso, o destino, um segundo adiantado ou atrasado, fez a diferença. 
"Sabes qual é um erro que cometemos sempre ? Acreditar que a vida é imutável, que, mal escolhemos um carril, temos de o seguir até ao fim. Contudo, o destino tem muito mais imaginação do que nós.Precisamente quando se pensa que se está num beco sem saída, quando se atinge o cúmulo do desespero,  com a velocidade de uma rajada de vento tudo muda, tudo se transtorna, e de um momento para o outro damos por nós a viver uma nova vida."

Susanna Tamaro nasceu em 1957 e, portanto, está longe desta "sabedoria". O facto de ter sido, também ela, criada pela avó, ter-lhe-á dado o mote para o livro e os ensinamentos descritos.

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