sexta-feira, 22 de julho de 2011

o lixo de sempre

EDITORIAL

É preciso coragem para limpar este lixo

por António Ribeiro Ferreira, Publicado em 22 de Julho de 2011 - jornal i

O governo decidiu aumentar 15 por cento os preços dos bilhetes e dos passes sociais dos transportes públicos. É evidente que a medida atinge directamente os contribuintes, já penalizados com mais impostos, mais inflação e salários no mínimo congelados. Em Portugal, até agora, tem sido sempre assim. Há buracos no Orçamento, sobem-se os impostos. Fazem-se investimentos em empresas monopolistas do Estado, paga o desgraçado do consumidor. Há erros miseráveis na gestão de empresas públicas, aumentam-se as tarifas dos serviços prestados por incompetentes. Por mais estranho que pareça, os senhores que andam há anos a jogar às cadeiras no sector empresarial do Estado nunca são responsabilizados por nada. Nem eles nem os políticos que os nomeiam alegremente para esses apetecíveis lugares e que, muitas vezes, pasme-se, ainda recebem prémios de gestão. O ministério de Álvaro Santos Pereira teve o cuidado de informar os contribuintes de que o sector dos transportes públicos tem uma dívida de 16,8 mil milhões de euros, isto é, cerca de 10 por cento do PIB. Mais ainda: esta extraordinária dívida, até 2010, triplicou em dez anos. Como se vê, a primeira década do século xxi, em que o PS governou sete anos e meio e o PSD, com o CDS, dois anos e meio, foi uma desgraça a todos os níveis. Os défices andaram sempre acima dos 3%, a dívida pública disparou, o desemprego aumentou e a economia estagnou. Nada mau para dez anos. Mas este fabuloso sector de transportes do Estado não deixa de surpreender em matéria de desgraças. Os juros das dívidas pagos em 2010 atingiram a bonita soma de 590 milhões de euros e o prejuízo no ano passado chegou aos 940 milhões de euros. Muito bem, senhor ministro. Dito isto, vá de aumentar os preços para os contribuintes suportarem este extraordinário regabofe. Mas há uma pequenina questão a pôr a Álvaro Santos Pereira. Este aumento de receitas vai servir para quê? Para se manter tudo como está neste pântano? Com os mesmos trabalhadores, com as mesmas regalias, com os mesmos acordos de empresa, com as mesmas megalomanias que fizeram tudo isto chegar a este miserável pântano? Sabe-se que o acordo com a troika impõe que este aumento entre em vigor já no início de Agosto. Espera- -se é que a muito curto prazo o ministro da Economia informe os portugueses dos cortes que vai fazer na CP, na Refer, no Metro de Lisboa, no Metro do Porto, na Carris, na Transtejo, na Soflusa, nos STCP e companhia limitada. O governo já cortou o subsídio de Natal na sua estreia e promete lá para o Outono apresentar um plano de cortes no Estado. Agora é o aumento brutal nos transportes sem um anúncio de redução brutal de despesas. Espera-se que os restantes nove ministros não se lembrem de fazer o mesmo. Já chega de aumentos e de austeridade. Ainda por cima, os trabalhadores dessas empresas, alguns familiares e uma imensa multidão de serventuários do Estado não pagam um cêntimo nos transportes públicos. O mexilhão que paga e bem por um mau serviço só espera que alguém com coragem varra este lixo. 

colossal

Ministério das Finanças

Nas palavras desta crise, o desvio continua a ser colossal

por Bruno Faria Lopes, Publicado em 22 de Julho de 2011 - Jornal i
"Ajuda", "PIGS", "lixo", "colossal". São várias as palavras que agravam o problema político europeu e português. A disciplina verbal é tão importante como a orçamental.
 
Esta semana o presidente do Banco Central Europeu deu o melhor conselho da cada vez mais autocolante crise do euro: é preciso mais disciplina verbal. Jean-Claude Trichet - que, como todos os banqueiros centrais, eleva a disciplina verbal a uma forma hieroglífica oral - criticava o facto de os líderes europeus falarem ao mesmo tempo sobre a mesma crise, mas com pontos de vista diferentes, provando que o problema é político. Mas podíamos pegar no conselho de Trichet e levá-lo mais longe: "disciplina verbal" poderia significar rigor e contenção no uso das palavras escolhidas para o palco desta crise. Tanto no resto da Europa como em Portugal, os líderes políticos e os media bem precisam de mudar a linguagem: disso pode depender, numa parte não negligenciável, a sobrevivência do euro e dos seus governos.

O melhor exemplo de indisciplina verbal é a escolha da palavra "ajuda" para designar os empréstimos aos países europeus em apuros, como Portugal. "Ajuda" ("bailout") é um termo enganador, porque mascara o que na verdade é um empréstimo, remunerado a uma taxa de juro punitiva, destinada não apenas a ajudar, mas a dar uma lição de moral aos países que recorrerem ao dinheiro. No caso português, por exemplo, a eliminação desta componente punitiva - a margem acima do custo de financiamento europeu - pouparia cerca de 500 milhões de euros por ano em juros. Isto é mais ou menos aquilo que o governo terá de cortar em 2012 na área da saúde.

O maior problema da palavra "ajuda" está no facto de servir na perfeição uma agenda populista contra estes empréstimos, uma agenda forte nos países do Norte da Europa, sobretudo na Alemanha. O contribuinte alemão não quer "ajudar" do seu bolso os gastadores e preguiçosos do Sul da Europa - e quem pode censurá-lo, se a ajuda vai para os PIGS?

Este acrónimo, outro exemplo de indisciplina verbal, foi colado há anos às economias problemáticas do Sul da Europa, pegando nas suas iniciais (Portugal, Irlanda, Grécia e Espanha). PIGS dá bons títulos para a imprensa - como "Why Pigs Can''t Fly", da revista "Newsweek" - mas reforça o mau serviço prestado pela palavra "ajuda". De caminho, consegue ainda antagonizar as populações dos países visados. [Este jornalista penitencia-se por já ter recorrido à muleta.]

Podemos ainda falar da palavra "lixo" quando aplicada à notação financeira de um país e não ao próprio país. Políticos e comunicação social fizeram eco até à exaustão do termo usado na linguagem dura dos mercados, de tal forma que até José Mourinho, emigrante ferido no orgulho patriótico, veio proclamar que "Portugal não é lixo". Pois não. Mas a sua dívida é e seria bom que a palavra fosse usada estritamente nesse sentido.

Depois há as inovações. Em Portugal, o governo anterior tinha um problema claro com as palavras - não com alguma em particular, mas com todas em geral. Era um problema de correspondência com a realidade. Mas o actual executivo está a começar mal. "Colossal", a palavra do momento, é um termo pouco rigoroso para falar de um desvio orçamental. Já que o primeiro- -ministro quebrou a promessa eleitoral de não subida de impostos, seria desejável que a explicação do desvio que inspirou essa primeira quebra de confiança fosse além da palavra "colossal" - sobretudo quando essa palavra contraria o que diz o ministro das Finanças e o Banco de Portugal e pode inspirar preocupação escusada "lá fora".

A crise do euro é política e económica, mas sobretudo política. Parte do problema nasce precisamente da linguagem da classe política - ampliada pelos media -, que mina a confiança entre os europeus e os eleitores e respectivos governantes. Trichet tem razão. Nesta altura de crise de confiança, o sentido das palavras conta muito. A disciplina verbal é tão importante como a orçamental - e aqui, infelizmente, o desvio continua a ser colossal.

Jornalista, escreve à sexta-feira

segunda-feira, 18 de julho de 2011

e por vezes

E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos   E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites   não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se envolam tantos anos.

   David Mourão-Ferreira

domingo, 17 de julho de 2011

O Castor

A depressão pode surgir do "NADA".
De que serve o sucesso profissional, uma família, bens materiais se a nossa vida se torna vulgar ? Se, à nossa volta, nada nos move ?
E, contudo, tudo o que nos rodeia é importante! Mas, de uma forma inexplicável, o importante é "NADA". Falta-nos algo mais. Algo que seja capaz de nos transformar, nos acordar, nos tirar do torpor da vulgaridade, da rotina.
Há uma semana atrás vi o filme "O Castor". Walter Black tem tudo...e não tem "NADA". O final do filme é, na minha opinião, bastante diferente do que aquilo que o trailer pode sugerir. Mas é a minha opinião. De qualquer forma e, apesar das críticas cinematográficas, considero-o um filme excelente.

Passado

"Quando se ama a vida, ama-se o passado, porque é o presente tal como sobreviveu na memória humana. O que não significa que o passado seja uma idade de oiro: tal como o presente, é ao mesmo tempo atroz, soberbo ou brutal, ou apenas vulgar."
   Marguerite Yourcenar

e pode amar-se a vulgaridade ?