Nas palavras desta crise, o desvio continua a ser colossal
por Bruno Faria Lopes, Publicado em 22 de Julho de 2011 - Jornal i
"Ajuda", "PIGS", "lixo", "colossal". São várias as palavras que agravam o problema político europeu e português. A disciplina verbal é tão importante como a orçamental.
Esta semana o presidente do Banco Central Europeu deu o melhor conselho da cada vez mais autocolante crise do euro: é preciso mais disciplina verbal. Jean-Claude Trichet - que, como todos os banqueiros centrais, eleva a disciplina verbal a uma forma hieroglífica oral - criticava o facto de os líderes europeus falarem ao mesmo tempo sobre a mesma crise, mas com pontos de vista diferentes, provando que o problema é político. Mas podíamos pegar no conselho de Trichet e levá-lo mais longe: "disciplina verbal" poderia significar rigor e contenção no uso das palavras escolhidas para o palco desta crise. Tanto no resto da Europa como em Portugal, os líderes políticos e os media bem precisam de mudar a linguagem: disso pode depender, numa parte não negligenciável, a sobrevivência do euro e dos seus governos.
O melhor exemplo de indisciplina verbal é a escolha da palavra "ajuda" para designar os empréstimos aos países europeus em apuros, como Portugal. "Ajuda" ("bailout") é um termo enganador, porque mascara o que na verdade é um empréstimo, remunerado a uma taxa de juro punitiva, destinada não apenas a ajudar, mas a dar uma lição de moral aos países que recorrerem ao dinheiro. No caso português, por exemplo, a eliminação desta componente punitiva - a margem acima do custo de financiamento europeu - pouparia cerca de 500 milhões de euros por ano em juros. Isto é mais ou menos aquilo que o governo terá de cortar em 2012 na área da saúde.
O maior problema da palavra "ajuda" está no facto de servir na perfeição uma agenda populista contra estes empréstimos, uma agenda forte nos países do Norte da Europa, sobretudo na Alemanha. O contribuinte alemão não quer "ajudar" do seu bolso os gastadores e preguiçosos do Sul da Europa - e quem pode censurá-lo, se a ajuda vai para os PIGS?
Este acrónimo, outro exemplo de indisciplina verbal, foi colado há anos às economias problemáticas do Sul da Europa, pegando nas suas iniciais (Portugal, Irlanda, Grécia e Espanha). PIGS dá bons títulos para a imprensa - como "Why Pigs Can''t Fly", da revista "Newsweek" - mas reforça o mau serviço prestado pela palavra "ajuda". De caminho, consegue ainda antagonizar as populações dos países visados. [Este jornalista penitencia-se por já ter recorrido à muleta.]
Podemos ainda falar da palavra "lixo" quando aplicada à notação financeira de um país e não ao próprio país. Políticos e comunicação social fizeram eco até à exaustão do termo usado na linguagem dura dos mercados, de tal forma que até José Mourinho, emigrante ferido no orgulho patriótico, veio proclamar que "Portugal não é lixo". Pois não. Mas a sua dívida é e seria bom que a palavra fosse usada estritamente nesse sentido.
Depois há as inovações. Em Portugal, o governo anterior tinha um problema claro com as palavras - não com alguma em particular, mas com todas em geral. Era um problema de correspondência com a realidade. Mas o actual executivo está a começar mal. "Colossal", a palavra do momento, é um termo pouco rigoroso para falar de um desvio orçamental. Já que o primeiro- -ministro quebrou a promessa eleitoral de não subida de impostos, seria desejável que a explicação do desvio que inspirou essa primeira quebra de confiança fosse além da palavra "colossal" - sobretudo quando essa palavra contraria o que diz o ministro das Finanças e o Banco de Portugal e pode inspirar preocupação escusada "lá fora".
A crise do euro é política e económica, mas sobretudo política. Parte do problema nasce precisamente da linguagem da classe política - ampliada pelos media -, que mina a confiança entre os europeus e os eleitores e respectivos governantes. Trichet tem razão. Nesta altura de crise de confiança, o sentido das palavras conta muito. A disciplina verbal é tão importante como a orçamental - e aqui, infelizmente, o desvio continua a ser colossal.
Jornalista, escreve à sexta-feira
O melhor exemplo de indisciplina verbal é a escolha da palavra "ajuda" para designar os empréstimos aos países europeus em apuros, como Portugal. "Ajuda" ("bailout") é um termo enganador, porque mascara o que na verdade é um empréstimo, remunerado a uma taxa de juro punitiva, destinada não apenas a ajudar, mas a dar uma lição de moral aos países que recorrerem ao dinheiro. No caso português, por exemplo, a eliminação desta componente punitiva - a margem acima do custo de financiamento europeu - pouparia cerca de 500 milhões de euros por ano em juros. Isto é mais ou menos aquilo que o governo terá de cortar em 2012 na área da saúde.
O maior problema da palavra "ajuda" está no facto de servir na perfeição uma agenda populista contra estes empréstimos, uma agenda forte nos países do Norte da Europa, sobretudo na Alemanha. O contribuinte alemão não quer "ajudar" do seu bolso os gastadores e preguiçosos do Sul da Europa - e quem pode censurá-lo, se a ajuda vai para os PIGS?
Este acrónimo, outro exemplo de indisciplina verbal, foi colado há anos às economias problemáticas do Sul da Europa, pegando nas suas iniciais (Portugal, Irlanda, Grécia e Espanha). PIGS dá bons títulos para a imprensa - como "Why Pigs Can''t Fly", da revista "Newsweek" - mas reforça o mau serviço prestado pela palavra "ajuda". De caminho, consegue ainda antagonizar as populações dos países visados. [Este jornalista penitencia-se por já ter recorrido à muleta.]
Podemos ainda falar da palavra "lixo" quando aplicada à notação financeira de um país e não ao próprio país. Políticos e comunicação social fizeram eco até à exaustão do termo usado na linguagem dura dos mercados, de tal forma que até José Mourinho, emigrante ferido no orgulho patriótico, veio proclamar que "Portugal não é lixo". Pois não. Mas a sua dívida é e seria bom que a palavra fosse usada estritamente nesse sentido.
Depois há as inovações. Em Portugal, o governo anterior tinha um problema claro com as palavras - não com alguma em particular, mas com todas em geral. Era um problema de correspondência com a realidade. Mas o actual executivo está a começar mal. "Colossal", a palavra do momento, é um termo pouco rigoroso para falar de um desvio orçamental. Já que o primeiro- -ministro quebrou a promessa eleitoral de não subida de impostos, seria desejável que a explicação do desvio que inspirou essa primeira quebra de confiança fosse além da palavra "colossal" - sobretudo quando essa palavra contraria o que diz o ministro das Finanças e o Banco de Portugal e pode inspirar preocupação escusada "lá fora".
A crise do euro é política e económica, mas sobretudo política. Parte do problema nasce precisamente da linguagem da classe política - ampliada pelos media -, que mina a confiança entre os europeus e os eleitores e respectivos governantes. Trichet tem razão. Nesta altura de crise de confiança, o sentido das palavras conta muito. A disciplina verbal é tão importante como a orçamental - e aqui, infelizmente, o desvio continua a ser colossal.
Jornalista, escreve à sexta-feira
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