terça-feira, 31 de maio de 2011

Shutter Island

    "Naquela noite, no passeio em frente do Cocoanut Grove, inclinado para a janela do táxi, a cara a centímetros de distância da de Dolores...
    Olhara para ela e pensara:
    Conheço-te. Conheci-te toda a minha vida. Tenho estado à tua espera. À espera que aparecesses.   À espera todos estes anos.
    Conheci-te no útero.
    Era apenas isso.
    Não sentiu aquele desespero de soldado de fazer amor com ela antes de embarcar porque soube, naquele instante, que havia de voltar da guerra. Havia de voltar porque os deuses não alinhavam as estrelas de modo que alguém encontrasse a outra metade da sua alma para depois lha tirarem.
    Inclinou-se para a janela do carro e disse-lhe isto mesmo."

                           in Shutter Island de Dennis Lehane

No ano passado, Shutter Island foi um dos meus filmes de eleição. Básicamente, mostra-nos como é fácil "passarmo-nos". Enlouquecer perante factos/acontecimentos marcantes. De como toda a sustentação de uma vida inteira, nada vale, quando algo devastador nos acontece. É um filme sem fim! Deixa-nos margem para o "nosso" fim. A ver, obrigatóriamente!
Agora li o livro. Normalmente são melhores os livros. Gostei mais do filme! A passagem acima revela o que Teddy (aliás Andrew, aliás Edward) sentiu ao conhecer Dolores que se tornará sua mulher. De facto, voltou da guerra. Os deuses não lhe tiraram a outra metade da sua alma. Ele próprio se encarregou de o fazer!

segunda-feira, 30 de maio de 2011

domingo, 15 de maio de 2011

Ah, quanta vez, na hora suave

Ah, quanta vez, na hora suave
Em que me esqueço,
Vejo passar um voo de ave
E me entristeço!


Porque é ligeiro, leve, certo
No ar de amavio?
Porque vai sob o céu aberto
Sem um desvio?


Porque ter asas simboliza
A liberdade
Que a vida nega e a alma precisa?
Sei que me invade


Um horror de me ter que cobre
Como uma cheia
Meu coração, e entorna sobre
Minha alma alheia


Um desejo, não de ser ave,
Mas de poder
Ter não sei quê do voo suave
Dentro em meu ser.

    
             Fernando Pessoa

sábado, 14 de maio de 2011

Segredo I

"Arquipélagos de cinza
Vistos ao luar,
Na escuridão do meu quarto
Onde não há luar algum.
Arquipélagos de cinza
Que eu irei abordar
Na escuridão do meu quarto,
Quando vier o sono
Devagar..."

              Cristovam Pavia

Que idade têm ?

Os Nossos mortos não têm idade! Vertem-se em lágrimas que entram pelos poros da derme e se fundem nos ossos. Ficam connosco para sempre. Omnipresentes.