domingo, 15 de maio de 2011

Ah, quanta vez, na hora suave

Ah, quanta vez, na hora suave
Em que me esqueço,
Vejo passar um voo de ave
E me entristeço!


Porque é ligeiro, leve, certo
No ar de amavio?
Porque vai sob o céu aberto
Sem um desvio?


Porque ter asas simboliza
A liberdade
Que a vida nega e a alma precisa?
Sei que me invade


Um horror de me ter que cobre
Como uma cheia
Meu coração, e entorna sobre
Minha alma alheia


Um desejo, não de ser ave,
Mas de poder
Ter não sei quê do voo suave
Dentro em meu ser.

    
             Fernando Pessoa

Sem comentários:

Enviar um comentário