domingo, 13 de fevereiro de 2011

Solidão II

Aquando do último post, tinha acabado de ouvir a notícia. Fiquei de tal forma chocado que, na altura, não escrevi mais nada do que deixar a pergunta no ar: "Como é possível tanta solidão ?"

É possível estar-se só, rodeado de gente. Sim. O comentário ao post anterior refere que "Ás vezes a solidão está mesmo ao teu lado!". Sim, também é verdade.
No entanto, creio que aqui se trata de uma solidão muito mais profunda. Uma coisa é sentirmo-nos sós, por falta de afecto, partilha, amigos, mas termos a possibilidade de recorrer a alguém. Mesmo essa pessoa que está ao nosso lado. Outra completamente distinta é a solidão total. Sem referências, sem contactos. O vazio !
Não deixa de ser curioso que estes casos surjam em idosos com autonomia. Se a não tivessem, estariam por certo ao cuidado de familiares e/ou centros de dia, lares, etc.
A D. Augusta era uma mulher com vida. A sua única companhia era um cão. Morreu com ela ! De fome, sede, tristeza. E ninguém deu por nada. Não há um latido, nada. O vazio como escrevi !
E esta solidão cresce nos nossos dias. Á medida que os avanços da medicina permitem o aumento da esperança de vida, permitem melhorias consideráveis na autonomia do ser humano, os retrocessos nos laços afectivos e nos processos sociais de acompanhamento dos familiares aumenta de igual forma. Não há tempo para um avô, uma avó, um tio, uma tia...um pai...uma mãe !
Consumidos por carreiras profissionais (muitas vezes também elas vazias), por egoísmos, pela falta de valores, permitimos que aqueles que mais amamos (em tempos), passem a ser um estorvo nas nossas vidas. Convencemo-nos de falsos argumentos: que os lares são melhores para eles porque têm assistência permanente - eles precisam; que não correm riscos; que têm sempre amigos por perto.
E esqueçemo-nos de que a principal companhia da qual precisam...somos nós. Os laços afectivos !
Não há muito li um livro de valter hugo mãe intitulado "a máquina de fazer espanhóis". o personagem principal - o Sr. Silva - é colocado num lar aos 84 anos, logo após a morte da sua mulher - Laura. Todo o livro versa sobre a problemática da solidão. Da chegada a um lar e todo o processo de aprendizagem de vivência no mesmo.

"a laura morreu, pegaram em mim e puseram-me no lar com dois sacos de roupa e um álbum de fotografias. foi o que fizeram...o quarto pequeno é todo ele uma cela, a janela não se abre e, se o vidro se partir, as grades de ferro antigas seguram as pessoas do lado de dentro do edifício. pus-me a olhar para o chão, com ar de entregue. estou entregue, pensei. aos meus pés os dois sacos de roupa e uma enfermeira dizendo coisas simples, convencida de que a idade mental de um idoso é, de facto, igual à de uma criança. o choque de se ser assim tratado é tremendo e, numa primeira fase, fica-se sem reacção."
                                                                      in "a máquina de fazer espanhóis" de valter hugo mãe

Por algum motivo, os suicídios em pessoas com mais de 85 anos têm aumentado em todo o mundo ocidental.

1 comentário:

  1. Nos tempos que correm, os familiares directos vivem cada vês mais longe uns dos outros.
    Os idosos de agora, são muitas vezes aqueles que "fugiram" dos seus pais e vieram para a cidade em busca de melhores condições. Os seus pais entretanto faleceram, e os seus irmãos, tios, padrinhos, etc, vivem longe, muito longe. Por ironia, também os seus filhos tiveram que abalar. Já não existe aquela facilidade de se viver na mesma rua ou no mesmo bairro/quarteirão.
    Se juntarmos a todo este cenário, os "afazeres" da vida relatados e bem no teu post, e ainda um predisposição para o isolamento, fruto de um carácter introvertido, então estão criadas todas as condições para uma vivência isolada.

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