quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Relógio

Charon
foto de h.koppdelaney

    Lutei toda a noite contra o relógio.
Eu estava sossegado quando a máquina apareceu, sorrateiramente, para me atormentar o descanso. Foi o ponteiro das horas a desferir o primeiro golpe. Um golpe fortíssimo, súbito, que me apanhou desprevenido, apesar de saber dos planos que  tinham preparado ao longo do dia. Mas não esperava o ataque por volta da uma hora. Assim, foi com grande custo que me fui defendendo, para que pudesse ir preparando uma estratégia de ataque.
    Foi sempre uma luta desigual. Eu estava sózinho contra os três ponteiros.
    Ainda combalido do primeiro golpe desferido pelo ponteiro das horas, vi-me mordido pelo ponteiro dos segundos. Grande e enérgico, jovem, parecia uma hiena, sempre a morder, a espicaçar. Eu dava-lhe estocadas como podia, voltando-me a cada instante mas ele, pediu reforços ao experiente ponteiro dos minutos que, de forma cobarde, me atacou na nuca, deixando-me inconsciente por alguns segundos.
    Lutei como pude, de forma quixotesca.
    Por volta das duas horas, o ponteiro mais pequeno, do alto da sua mestria, abria-me violentamente as entranhas. Foi necessária a intervenção médica do Dr. Leite para que me conseguisse recompôr um pouco. Na verdade, consegui até apanhá-los aos três - horas, minutos e segundos - numa armadilha que quase foi mortal. Quase !
    As máquinas são poderosas, cheias de manhas e energia inesgotável.
    Quando estava já no defeso, a saborear a glória da vitória (pensava eu), um ataque combinado dos três, pelas 3:30, não só reabriu a ferida recentemente tratada, como me abriu um golpe profundo na cabeça, soltando todos os pensamentos maléficos que eu tinha aprisionado nos últimos tempos. Se até aí, de forma heróica, tinha lutado ferozmente, a partir desse momento, percebi que não tinha já forças suficientes e a batalha estava perdida.
    Fui torturado pelos três ponteiros, em uníssono, até às 6:30. Aí, já moribundo, fui abandonado, inconsciente, para o resto do dia.

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